terça-feira, 8 de julho de 2008

Caravana de Heróis

Saindo de Dol Kuzdul me indaguei se não deveria organizar estas memórias de acordo com as datas que as coisas aconteciam, e joguei a pergunta ao resto do grupo. De Tundio veio a resposta (na forma de perguntas) mais satisfatória:

- O que são datas?

- São os dias organizados num calendário, que é uma tabela que usamos para saber em que dia estamos.

- Um dia vem depois do outro nesta tabela?

- Sim, por quê?

- Que sentido há nisso?

Satisfeito com aquilo resolvi que estas narrativas serão organizadas em episódios, que darei nomes conforme eles forem surgindo. 'Caravana de Heróis' é o nome deste, pois assim se portaram meus companheiros ao se depararem com com as adversidades de Jazi, um vilarejo nos limites de Tavres, onde viviam pessoas que eles nunca viram na vida...

Viajávamos de cabeça baixa, pois íamos rumo ao sol poente, quando um rápido e repicado batuque chegou até nós. Erguendo os olhos avistamos um fumaceiro ao longe e apertamos o passo, tomados pela curiosidade. Adentramos a fumaça como crianças que aprendem uma brincadeira nova, quando encontramos três pessoas sendo atacadas por figuras assustadoras, de corpo semelhante ao de humanos, mas com rostos e cabeleira imensos, desproporcionais à parte de baixo. Foi o que nos mostrou que aquilo não era, de forma alguma, uma brincadeira. Levamos os camponeses para dentro de uma casa, que parecia um local seguro, e não vi quando dois daqueles seres tombaram ante às armas de Tyrus e Selena. Fique sabendo disso só depois que a confusão acabou, pois estava assutado demais com aqueles monstros, e minha mente também parecia entorpecida, como se tivesse ingerido aguardente, mas sem a euforia que elas nos proporciona.

Terminados os batuques, dispersada a fumaça e passada a confusão, fomos lá fora ver o que havia ocorrido, já que as três pessoas que ajudamos eram incapazes de articular qualquer som. Lá fora encontramos seis corpos que pareciam humanos, só que secos, como frutas que ficaram ao expostas ao sol por muito tempo. Rasputin, após observá-los com mais cuidado concluiu que não havia sangue lá dentro, que de alguma forma aquelas criaturas extraíram. Os corpos do monstros abatidos por Tyrus e Selena não estavam mais lá, desapareceram jundo da fumaça.

Um senhor de pele escura como Tundio veio até nós e se apresentou, se chamava Blús, e nos deu as boas vindas à Jazi, pedindo desculpas por termos chegado em momento tão ruim. Perguntamos o que fora aquilo e ele se limitou a responder – Isso sempre acontece. Não se envolvam. - e providenciou um lugar para ficarmos que pertencia à família que morrera no ataque. Apesar de incomodados com a habitação que, dada a situação, tinha mais ares de túmulo, ficamos ali, pois noites ao relento após caminhar o dia todo não são de forma alguma agradáveis. Naquela noite tentamos indagar outros habitantes sobre o acontecido, mas não recebemos nada além de um – Isso sempre acontece! -, conformado. Fomos dormir, intrigados com aquilo.

No dia seguinte, pela manhã, enquanto comprávamos frutas, Yuko fez um comentário pertinente – É impressão minha ou este lugar tem menos cores?. Ninguém concordou de pronto, mas todos ficaram pensando naquilo. O sol já estava quase na metade de seu percurso quando uma menina chamada Lia veio até nós e nos fez tantas perguntas que precisamos nos revezar para responder. Ela estava curiosa sobre quem éramos, porque carregávamos facas e machados grandes, porque nos vestíamos tão diferentes dos adultos que ela conhecia... Enfim, queria saber sobre nós. Após respondidas umas quinze ou vinte perguntas dissemos à ela que era nossa vez de perguntar, e ela aceitou. Perguntamos sobre o dia anterior, a freqüência daquilo e porque não de falava daquilo. Ela nos disse que aquilo acontecia a cada mudança de estação, que a única instrução dos adultos era se esconder e não pensar sobre aquilo, porque depois de crescidas as crianças não mais teriam que pensar sobre. O pessoal se reuniu numa roda, enquanto eu mostrei alguns sons do violão para Lia e logo voltaram dizendo – Decidimos que, eles querendo ou não, ajudaremos esta cidade! Achei engraçado o modo que expressaram sua vontade, ao mesmo tempo que admirei a atitude. Combinamos o seguinte: vasculharíamos a região em busca daqueles seres, e nos reuniríamos na casa que nos fora emprestada ao pôr-do-sol. Lia insistiu em nos ajudar, e Selena ficou com ela.

Foi um trabalho estranho, pois não fazíamos a mínima idéia de onde começar, e procurei dentro mesmo da vila, procurando qualquer coisa. Na realidade eu não sabia nem o que estava procurando, mas meu amigos pareciam tão empenhados que achei errado não ajudá-los. Chegado o fim do dia nos reunimos apenas para descobrir que ninguém descobriu nada. A única informação nova foi que Rasputin não acharam rastros em volta da cidade que não fossem de bois ou carroças, meio de locomoção que não são conhecidos pela sua velocidade. Eu disse que fora um daí perdido, mas Tyrus respondeu que não, pois aquele primeiro dia diminuiria o espaço de busca para o dia seguinte, facilitando o trabalho. Admirável o otimismo do gigante.

Na manhã seguinte ouvimos alguém bater à porta. Era Lia. Mal o sol tinha nascido e lá estava a menina, esperando para retomar as buscas do dia anterior. Levamos uma hora para comer, nos lavar e finalmente acordar, antes que pudéssemos começar. Tyrus disse que era mais fácil os monstros saírem de algum lugar dentro da cidade do que a abandonarem sem deixar rastros. Fazia sentido. Então limitamos a vasculhar apenas a área interna da cidade, o que se mostrou mais frutífero, pois pois nem passada uma hora Rasputin achou um alçapão junto à uma casa na cidade.

Eu procurei ali no dia anterior, mas a passagem me escapou ao olhos, talvez porque eu não sabia o que procurava.

Resolvemos então separar o grupo, para caso houvesse um novo ataque, haveria alguém para defender os camponeses. Descemos Tyrus, Yuko, Selena e eu. Dentro do alçapão havia uma escada que descia cerca de 5 casas de altura. O ar era úmido e opressor. As paredes feitas de terra e rochas, sustentadas por armações de madeira, já levemente apodrecidas. Ao chegar ao fundo acendemos quatro tochas, sendo que eu carreguei duas, pois Tyrus preferiu brandir sua alabarda com duas mãos enquanto nós iluminávamos o caminho – Armas de haste têm vantagens quando usada desta forma em túneis – justificou. Mais à frente deparamo-nos com desenhos nas paredes, feitos de uma tinta vermelha com um forte odor de ferro, que o gigante disse ser sangue. Se o era de fato algo o manteve fresco, pois reluzia com as chamas. Nestes desenhos julgamos estar representadas atividades como a caça, a pesca, o plantio, entre outras; o que não trouxe nenhum esclarecimento sob o que estava acontecendo. Passado algum tempo andando chegamos a uma rústica porta de madeira, dupla. Após Yuko checar a presença de armadilhas e de possíveis alguéns mais atrás da porta, Tyrus a arrombou com um poderoso chute, pois ela estava fechada com uma tábua cruzada do outro lado. A passagem levava à uma câmara grande, cheia de cinzas e buracos no teto. Investigamos o que havia para investigar e novamente não chegamos à nenhuma conclusão. Seguimos por uma porta no canto, esta menor e desbloqueada. O túnel continuava por mais algum tempo, até que chegamos à um pequeno córrego e, do outro lado deste, uma escada, que nos levou até um galpão onde encontramos muitas ervas armazenadas em sacos grandes, feitos de alguma planta trançada. Uma resmungada alta de Tyrus, denunciou nossa presença à homens que estavam do lado de fora, e estes não quiseram conversar, se lançaram rapidamente sobre nós brandindo lanças curtas e espadas curvada, que mais pareciam grandes facas. Utilizando corredores com vantagem Tyrus e Selena fizeram com que a maioria tombasse, deixando o restante para Yuko, que se movia num aparecer e desaparecer constante por trás dos sacos. Foram ao todo nove inimigos mortos, e não pareciam em nada diferentes de homens comuns, talvez apenas pelas poucas vestimentas.

Terminado o combate e ocultos os cadáveres fomos ver o que havia lá fora, e encontramos uma vasta plantação. O que quer que fossem aquelas plantas, elas deveriam ser destruídas, pois eram cultivadas por nossos inimigos e deviam ter algum uso importante para eles - Nenhum agricultor deixa nove guardas protegendo sua alfaces! - resmungou Tyrus. Fizemos alguns focos de fogo pela plantação e no galpão, quando senti (e mais tarde fiquei sabendo que a sensação foi compartilhada entre o grupo) um entorpecer dos sentidos e que as cores rapidamente sumiram, deixando no lugar apenas um tom acinzentado. Voltamos correndo pelo túnel, enquanto Selena e Tyrus danificavam as vigas de sustentação do mesmo, e as deixavam quase a ponto de ceder.

Ao sairmos do outro lado ouvimos o som da passagem subterrânea desabando atrás de nós, enquanto o solo se assentava suave e rapidamente. Quando indagados por nossos companheiros dissemos que resolvemos o problema imediato e conversaríamos sobre o assunto vai tarde. Nem todos respeitaram nosso pedido, mas umas palavras rude de um gigante bastaram para que ficássemos em paz. Nenhum de nós sabia explicar mas fomos tomados por um desânimo tremendo, a ponto de não termos vontade sequer de falar. Dormimos antes do sol se por naquele dia, e na manhã seguinte nos sentíamos um pouco melhor e relatei o acontecido. Após muito debate a conclusão que pudemos chegar foi que aquela erva possuía um efeito depressivo, o que mantinha aquela cidade a mercê dos atacantes, que provavelmente eram imunes aos efeitos daquela fumaça e a espalhavam pelo aposento cheio de cinzas e buracos no teto, que ficava no túnel. Isso explicava as vias de entrada da névoa, do nosso inimigo e porque ninguém ali tinha vontade de se defender, mas não explicava os desenhos em possível sangue e o porquê de tudo aquilo. Resolvemos comunicar Blús de tudo e seguir avançando, em busca de mais pistas, mas qual foi a nossa surpresa ao ouvir do senhor que aquela erva era a base do sustento daquela vila.

Foram em vão nossos pedidos de que a planta entorpecente fosse descartada e outra alternativa fosse buscada para a alimentação. Tristes com nosso fracasso em auxiliar aquelas pessoas resolvemos descansar mais um dia e partir na manhã seguinte. De noite Lia veio nos procurar e pdiu para partir conosco e aceitamos sem sequer discutir, pois era nossa obrigação tirá-la daquela cidade condenada pela própria vontade.

Essa foi nossa primeira viagem longa, seguindo o 'mapa' de Selena, e estamos agora num barco cruzando o 'Rio Verde', que divide a região da Procelária de Roris. O mapa parecia indica uma ilha numa grande divisa, e leste foi a direção que Mordanin apontou, frisando que há mais de 300 anos ele não saia de sob a terra, e poderia estar errado ,mas como já disse antes, não tínhamos rumo e viajar era tudo que queríamos.

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